MANIFESTO dos Sociólogos
do Rio de Janeiro

Uma nova  geração de sociólogos que desponta na sociedade fluminense. Não é mais aceitável que jovens precisem seguir o poder estabelecido para terem voz ou espaço profissional. Está na hora desta nova geração de sociólogos se com suas idéias e objetivos! Foi com esta finalidade que se reuniram na cidade do Rio de Janeiro, sociólogos de todo o Estado e redigiram o presente manifesto.

 

I - Por uma nova Sociologia:

 

Tamanha é a crença na vida, no que a vida tem de mais precário, bem entendido, a vida real, que afinal esta crença se perde. Como Breton diria, o homem, esse sonhador definitivo, cada dia mais desgostoso com seu destino, a custo repara nos objetos de seu uso habitual, e que lhe vieram por sua displicência, ou quase sempre por seu esforço, pois ele aceitou trabalhar, ou pelo menos, não lhe repugnou tomar sua decisão (o que ele chama decisão!).

Queremos uma Sociologia que interprete a realidade social contribuindo para a solução dos problemas da sociedade. Queremos uma sociologia engajada, despretensiosa de seu saber, companheira de outros conhecimentos e comprometida com a sociedade civil. Comprometida com a sua cultura e com os movimentos políticos e sociais que lutam pela superação das desigualdades e pelo fim da opressão, contra todas as subjetividades e ações que isso possa encerrar.

 

II - O novo movimento na Sociologia no Rio de Janeiro:

 

Nós sociólogos não formamos um movimento à parte, nem nos opomos aos outros movimentos sociais. Nossos interesses também são os mesmos dos movimentos sociais, em geral não pretendemos modelar o movimento social, formulando princípios particulares.

Os dois únicos pontos que caracterizam o nosso movimento: 1. Destacam e fazem prevalecer os interesses comuns dos trabalhadores: empregados, servidores ou profissionais liberais, nas diversas lutas nacionais, independente de sua nacionalidade. 2. Representam, sempre, e em toda parte, os interesses do movimento em geral, nas diversas fases da luta contra a opressão.

 

III - Os nossos objetivos:

 

A finalidade de nosso sindicato é a de representar a categoria dos sociólogos e de empreender a luta pela consolidação e pela ampliação do mercado de trabalho. Estabelecemos três eixos de luta de nossa entidade que não se sobrepõem e devem ser enfrentadas simultaneamente, para efetivar estas lutas criaremos comissões que estarão atuando nessas frentes, mobilizando os sociólogos e promovendo estudos, projetos e intervenções:

O primeiro eixo de luta do sindicato será o de consolidar e ampliar as conquistas obtidas com a Emenda Constitucional n° 06/2003 que altera o artigo 317 da Constituição do Estado do Rio de Janeiro, conforme menciona, no parágrafo 4°, "Serão introduzidas, como disciplinas obrigatórias, nos currículos de Ensino Médio, das Redes Pública e Privada, em todo o território do Estado do Rio de Janeiro, as seguintes disciplinas: Sociologia e Filosofia, devendo ser, cada uma, aplicada por no mínimo dois anos.", nos aliando aos sindicatos dos profissionais da educação e reforçando o seu papel na luta pela educação em geral e pela especificidade do ensino da sociologia; lutando por uma lei estadual e federal que obrigue as instituições públicas e privadas de incluir a sociologia em todas as séries do Ensino Médio, com uma grade curricular similar as outras disciplinas, por um currículo que seja definido pelas entidades dos sociólogos e pela exclusividade do licenciado em sociologia em lecionar a disciplina de sociologia. No ensino fundamental incluir a obrigatoriedade da sociologia a partir do 5º (quinto) ano do Ensino Fundamental, de forma que a sociologia seja oferecida obrigatoriamente até o último ano do Ensino Médio. No Ensino Superior lutar para as disciplinas de sociologia serem lecionadas exclusivamente por sociólogos, em áreas que se tornaram tradicionais em outros cursos na universidade, como a sociologia do direito, nos cursos de direito, como a sociologia da educação, nos cursos de pedagogia; e nos novos cursos, como o de administração, relações internacionais, turismo etc;

 

O segundo eixo de luta é sobre o Conselho Federal dos Sociólogos. A Federação Nacional dos Sociólogos em seus mais de vinte anos de luta, deliberou nos seus diversos fóruns pela criação do Conselho Federal dos Sociólogos, pela necessidade de uma entidade para fiscalizar o exercício profissional, função exercida atualmente pelo Ministério do Trabalho, elaborando  um código de ética que puna os maus profissionais. No entanto, para a criação de um Conselho Federal dos Sociólogos é imprescindível uma entidade de grau superior que coordene o debate e faça pressão para que o executivo federal crie esta autarquia. Assim, um dos eixos de luta fundamental para a proteção da profissão do sociólogo é a unidade dos sindicatos da categoria na Federação Nacional dos Sociólogos. Neste sentido, vamos lutar para que a Federação Nacional dos Sociólogos congregue essa luta, apoiando a reorganização da Federação Nacional dos Sociólogos - Brasil, sucessora legítima da antiga Associação dos Sociólogos do Brasil (1977, Belo Horizonte) e Federação Nacional dos Sociólogos (1988, Salvador) e faremos todos os esforços para viabilizar a sua legalidade, seja por processo de re-ratificação de fundação ou mesmo a reorganização em novas bases em nova entidade de mesmo caráter e nome. Para isso nos articularemos com todos os sindicatos de sociólogos possuidores de códigos sindicais e, obedecendo a legislação sindical brasileiras e as normas do Arquivo Nacional de Entidades Sindicais, daremos passos nesse sentido de termos o mais breve possível a nossa entidade nacional para coordenar de forma unificada e unitária, em bases de consenso, sem exclusões e vetos a pessoas, correntes políticas e entidades estaduais, as lutas dos sociólogos brasileiros;

 

O terceiro eixo de luta que vamos empreender é quanto às áreas que o sindicato poderá atuar ampliando e consolidando o mercado de trabalho através de projetos de lei, municipais , estaduais e federais e de ações jurídicas que possam intervir na defesa da profissão do sociólogo. Desta forma, identificamos profissionais da sociologia em pelo menos 17 grandes áreas do mercado de trabalho, às quais resumimos em três grandes blocos: os de áreas tradicionais, bem aquecidas e bem consolidadas onde praticamente só os sociólogos atuam. Um segundo bloco, de áreas bem desenvolvidas, mas com alguma disputa com outras profissões e, por fim, um terceiro bloco de mercado de trabalho, muito disputado com outras profissões e ainda não muito desenvolvidas.

 

São os seguintes blocos: Áreas reservadas - Mercado bem aquecido - São três grandes áreas:

1. Docência (docência de sociologia no ensino médio; docência em quase todos os cursos superiores do país; cursos especiais de cidadania e ética que vem sendo dados a trabalhadores em cursos de reciclagem; docência em cursos de especialização, mestrado e doutorado em Universidades);

 

2. Pesquisa Social (todas as pesquisas desenvolvidas por agências sociais, as pesquisas de opinião pública, pesquisas étnicas, demográficas, de gênero);

 

3. Pesquisa de Opinião e de Mercado (elaboração do "survey" de perfil dos entrevistados; planeja e executa todo o projeto da pesquisa; elabora os relatórios finais daspesquisas; treina entrevistadores de campo; define a base amostral; orienta programadores de informática sobre o sistema de apuração).

 

Áreas não exclusivas - Mercado relativamente aquecido - São sete grandes áreas:

1. Sindical (exercendo funções de assessoramento sindical; planejamento político e sindical; campanhas salariais; negociações coletivas e dissídios de categoria; cursos de formação sindical);

 

2. Meio Ambiente (elaborando relatórios e estudos de impacto de meio ambiente; cuida de relações sociais com o meio; acompanha projetos de assentamentos humanos rurais em áreas de barragens; torna-se analista sócio-ambiental);

 

3. Planejamento e Desenvolvimento Urbano (nas áreas das secretarias municipais e estaduais de planejamento urbano; relações sociais urbanas; atuam como analistas de viabilidade social de empreendimentos de infra-estrutura urbanas e habitacionais, em equipes multidisciplinares; análises de projetos sociais de participação comunitária; elaboração de análises e diagnósticos sócio-econômicos; elaboração, acompanhamento e avaliação de projetos sociais);

 

4. Reforma Agrária (assentamentos de trabalhadores rurais sem-terra; estudos de perfil de assentados; estudos sócio-econômicos de populações a serem assentadas, atuando em equipes multidisciplinares de profissionais (com economistas, geógrafos, agrônomos);

 

5. Relações Internacionais (atuam nos departamentos de relações internacionais das grandes empresas, como analistas e consultores internacionais; atuam na área diplomática; desenvolvem estudos sobre conflitos regionais e dão pareceres sobre os mesmos, propondo soluções);

 

6. Marketing Político (assessoria política; análise política e estatística em geral de resultados de levantamento de pesquisas e sondagens eleitorais; assessoramento em campanhas eleitorais);

 

7. Lazer e entretenimento (trabalho em projetos em centros populares de lazer tipo SESC e SESI; pesquisa e docência na área de sociologia do lazer e do turismo).

 

Áreas de disputa com outras profissões - Mercado pouco desenvolvido ainda - São seis grandes áreas:

1. Área da Saúde (participam ativamente de grupos multidisciplinares de saúde com outras profissões em instituições de reabilitação profissional; atuam em medicina preventiva, postos de saúde comunitária);

 

2. Jurídica e Carcerária (estudos de delinqüências sociais; estudos de violência social; sociopatias; estudos de populações carcerárias; análises de perfis);

 

3. Legislativo (atuam na assessoria legislativa parlamentar, em mesas de Câmaras e Assembléias Legislativas e mesmo no Congresso Nacional; desenvolvem estudos e pesquisas especiais que fundamentam elaboração de projetos de Lei);

 

4. Recursos Humanos (atuam no processo desde contratação, treinamento, análises das relações humanas no trabalho; atuam na área de relações industriais; negociações trabalhistas e sindicais, dissídios coletivos);

 

5. Mercado Editorial (assessoramento na área de publicações especializadas e técnicas; pareceres como consultor especializado; coordenam departamentos de documentação; realizam pesquisas);

 

6. Comunicações (assessoramento das redes de comunicações de massa; análises de resultados de audiências; pesquisas qualitativas de audiências; impactos de programas nos ouvintes; índices de satisfações com a programação;

 

7. Cultura (Atuam como gestores culturais, em órgãos como SESC e SESI, empresas estatais e privadas, Secretarias Municipais e Estaduais da cultura, bem como no governo federal; Elaboram projetos, inventários, ações e censos culturais e formulam políticas públicas para o setor).

 

Conclusão:

 

Para efetivarmos os nossos objetivos pretendemos nos articular com os movimentos sociais em geral, como os partidos, com o Movimento dos Sem Terra - MST, etc., lutando por uma regulamentação aperfeiçoada dos sociólogos como profissionais, como também se aliar as outras categorias que estejam na mesma luta pela sua afirmação no mundo do trabalho. Pretendemos também realizar cursos e pesquisas no sindicato ou em convênios com entidades de ensino e pesquisa, como também com outros sindicatos e organizações civis. Pretendemos também promover o debate sobre os rumos da sociologia e sua maior sintonia com a realidade contemporânea, enfatizando a crítica social e política: no campo das relações do trabalho; das de gênero; das etnias; dos movimentos sociais em geral; das relações internacionais, em particular com as nações e movimentos oprimidos pela hegemonia mundial, como Cuba, o povo palestino, o movimento indígena na América Latina, o movimento Zapatista, e todos os movimentos sociais que lutam contra a opressão; e das novas realidades sociais que gradativamente surgirem na sociedade. Um conceito novo de Universidade que rompa com a carreira hierárquica e burocrática que prevalece nas universidades, seguindo os modelos europeu e norte-americano. De um conhecimento construído com participação da sociedade civil e para a sociedade. Uma Universidade do sindicato dos sociólogos, com outros sindicatos e movimentos sociais que permita que o conhecimento possa se vincular a poesia e aos sonhos de uma nova sociedade possível.

 

 

Rio de janeiro, 23 de fevereiro de 2008 | Manifesto de fundação do SINDSERJ